outubro 29, 2003

Telegenia.

Cap. I

Coisas fúteis após um dia de trabalho. Numa esplanada onde o sol ainda bate, falar de politica, futebol, das intermináveis guerras, da fome. Tudo futilidades ao pé de um dia horrivel de trabalho. Sim. Porque quem paga o carro último modelo que tenho na garagem? E o Hi-Fi que me alimenta a alma? O apartamentozinho duplex onde recebo os amigos mais chegados? (e os outros também).
Não pensem que não me preocupo! Preocupo-me sim, e muito. Mas já que não posso fazer nada, parem de debitar essas imagens horriveis de crianças disformes de má nutrição, de corpos muribundos caídos pelo chão, dos refugiados de um qualquer país terceiro mundista. Ainda por cima na minha TV de alta definição! Que de terceiro mundista não tem nada.

Por esta altura devem de estar a pensar cobras e lagartos de mim. Que sou insensivel. Amarga, talvez. Mas não. A palavra é... desiludida. Perguntam-se, agora, se de cada vez que entro numa loja para comprar um daqueles aparelhos super sofisticados, que gravam imagens e sons, e emitem as mais lindas sensações, não sinto uma pontinha de remorso. Remorso porquê? Por quem? Pelas criancinhas inocentes que morrem nessas guerras super imaginativas? Ou pelas outras que não têm o que comer e incham como balões de ar quente? Ou por vocês? Que pensam como eu, agem como eu, ignoram como eu, mas não admitem como eu?
Devem de estar com vontade de me chegar a roupa ao pêlo. Mas continuam a dormir o sono dos justos. Ou será dos injustos? Talvez nos falte inspiração.
Continuamos a ser os mais sós com toda, ou apesar de toda, a nossa telegenia.

Continua

Publicado por cerebro em 07:26 PM | Comentários (1) | TrackBack