outubro 29, 2003

Meu nome...

... é Valentim.
Não sei como, desculpem-me,
mas apenas apareci.
Não tenho passado, não lembro o futuro.
Nem sei porque vim.

O que eu sinto... meus amigos
é que, se para uns acabou
para mim começou.

Minha alma é alva, minha pele é negra, sensibilidade é força
a força é delicada.

Mas meu nome é Valentim e,
isso deve querer dizer alguma cousa.

Sou filho porque nasci,
sou pai porque é assim.
E mãe... enfim.

Um dia eu encontrei, a visão de uma flôr
e fiquei inebriado
fiquei embriagado.
Com a exaltação desse odor.

E o meu mundo que era nada
rápido se transformou
num rio, num mar oceano,
numa galáxia de estrelas aladas.

Mas meu nome é Valentim
e nem sei porque vim.

Guida R. Pires

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Para além do prémio... a memória.

Não se perdeu nenhuma coisa em mim

Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Publicado por cerebro em 09:03 AM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 28, 2003

LXVIII

Agora estou na vida sem senti-la.
Como um velho num quarto de hospital,
com os olhos pregados na janela.
Pupilas dilatadas, já vê mal.

As rugas que se vêm no seu rosto
são o espelho de quem ousa não morrer.
Para o céu minhas preces eu remeto.
Liberta-me da vontade de querer...

a morte deste velho vagabundo.

Guida R. Pires

Publicado por cerebro em 06:13 PM | Comentários (0) | TrackBack

Em tempos...

Em tempos cruzaste continentes.
Noutros cantaste alto tuas vitórias.
Mas o tempo que importa tu esqueceste.
E isso não perdoa nem a história.

As lágrimas que te caem pelo rosto.
Quando vês os teus filhos na loucura.
Não limpam a vergonha de teres morto
a memória de um tempo que ainda dura.

Vou esperar sereno pelo dia
em que o dedo da justiça se levante,
e te acuse de teres tido a ousadia
de esquecer um tempo que é presente.

Guida R. Pires

Publicado por cerebro em 06:08 PM | Comentários (0) | TrackBack

Reconhecimento...

Reconhecimento à Loucucura

Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar

José de Almada Negreiros

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outubro 24, 2003

Sonhos partilhados...

Não sou nada
Nunca serei nada
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Estou hoje vencido, como soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer.

Fernando Pessoa

Publicado por cerebro em 02:30 PM | Comentários (1) | TrackBack

outubro 17, 2003

Porque, por vezes, tenho vontade de outro EU...

Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo p'ra me ver
E que nunca na vida me encontrou!


Florbela Espanca

Publicado por cerebro em 01:43 PM | Comentários (0) | TrackBack