fevereiro 18, 2004

O riso.

Tanto chão perverso pisei
Tantos homens gentis recusei
As esquinas da noite
Onde tantas vezes fiquei
Os sonhos nervosos que com eles sonhei

O riso


Guida R. Pires

Publicado por cerebro em 10:51 AM | Comentários (3) | TrackBack

A longa marcha.

Vêm os estivadores do grande porto.
Vêm as meninas do strip-tease.
Dos subúrbios para a cidade. A cidade suburbana.
Vêm todos. E todos são muitos.
Em silêncio caminham
E só se ouve o som na calçada.
Vêm os estudantes dos livros esgotados.
Vem o padre que traz as senhoras.
Já são aos milhares.
E o rei que está só.
Já são aos milhares.
E o rei que está só.
São figurantes da longa marcha.
É isso que eu vejo.
São figurantes da longa marcha.


Guida R. Pires

Publicado por cerebro em 10:49 AM | Comentários (1) | TrackBack

fevereiro 10, 2004

No silêncio

No silêncio.

Se disseres o meu nome deixarei de existir. É uma velha paixão, uma estranha mania. Sou massa de moldar nas tuas mãos. Por isso quero partir naquele comboio. Dizem que pára na estação da felicidade.

No meio do silêncio e da escuridão toquei uma valsa para ti. E morri um pouco mais. Porque eu tenho o tempo mas não encontro o momento.

Foi no nevoeiro que me escondi e sonhei um sonho verdadeiro. Amanhã espero que estejamos em casa.

Procurei, até, debaixo das pedras. Corri como um relâmpago. Fiz-me de tolo. Praguejei. Mas não fugi.

O jogo terminou. Na sua face não vi o terror nem o medo. Vi a esperança na vitória. Vi a dádiva.

Sensação estranha esta de arruinar com a vida. Não sei se consigo viver com isso.

Tenho visitas indesejáveis em casa. Queres vir recebe-las por mim?

Alguma coisa se perdeu ali, naquele bocadinho de meia-verdade. E no meio do escuro negro ficou uma mancha de transparente mentira. Que não consigo apagar.

Porquê esta obsessão por lutar? Deixa o amanhã para amanhã. É estranho que alguém como tu perca tempo com alguém como eu.

Esqueceste o quão fundo já fomos? Tenho medo da multidão.
Sim foi bonito, mas agora é amargo.

Tens aquele olhar que raramente se vê. E nunca dizes uma palavra, como se não tivesses escutado. E desapareces de novo. E todos chamam por ti. No silêncio.

Não tenho como te livrar de tal sorte. Fecha os olhos e relaxa.

Porquê lutar contra a multidão?

Não lutas por mim? Lutar sofrendo e depressa morrendo?

Não morres por mim? Terás todo esse Amor dentro de ti?

Quando o cego ergue os olhos aos céus o que é que vê?

Quando a andorinha frágil e determinada sulca os ventos frios, procurando o calor sem certezas de destino, o que é que a move?

É a fé. A fé e esta insustentável atracção pelo tédio que me levam a matar , uma e outra vez, estas estranhas vidas que em mim nascem.

Se compreendessem como eu compreendo, teriam de morrer.

Meus olhos são imagens difusas. Minhas palavras não fazem sentido. Meu andar é de um velho eremita. Não sei como continuar. Mudei. E isso assusta-me tanto!

Não estou aqui de livre vontade. O fim é sempre um pouco mais difícil.

Quem sou? O que sacrifiquei? Só queria saber.

Até esta manhã a vida era bela.

(Pelo menos estás viva).


Guida R. Pires

Publicado por cerebro em 12:27 PM | Comentários (3) | TrackBack