janeiro 29, 2004

(Um titulo vale o que vale)

Incondicionalmente Guilherme amava Diana.

Com uma invulgar cumplicidade olhavam-se desesperadamente, como se de dois se fizesse só um. A verdade cruel não existia, nem a mentira.
Entendimento perfeito, soberbamente reflectido em dois corpos, duas almas.
A noite clara e as ruas deliciosamente molhadas. As luzes de néon penetram as paredes nuas, e deixam no ar a mágica de que nada mais existe. Tudo é tão perfeito.

Diana é bela. Olhos grandes cinzentos, nariz pequeno, lábios cor de fogo. Corpo esguio torneado. Acabamos por acreditar que tudo acaba ali, num pequeno quarto de uma água-furtada na rua Rodolfo Leão.

Rodolfo Leão percorre o porto de Amitri. Casas antigas, quase todas de três andares. Alguns armazéns onde pescadores guardam o peixe.
Dias a fio em alto mar, sós, sem mulher sem filhos, numa faina que parece não ter fim.
A dignidade com que esperam o dia comove-me. Por isso escolhi este lugar para viver.

Meu nome é Guilherme e amei Diana. Quando tudo parecia fugir, corpo alma e futuro. Quando as crises chegavam, encharcava a alma em vinho, brigava e partia tudo o que encontrava.
Guilherme sou eu. Não sei o que quero da vida. Diana morreu. Matei-a.
Hoje não estou mais triste.

O dia acabara e o azul sereno da noite levantava-se lentamente. A lua reflectida nas águas do porto balançava, doce sensual.

Nada mais tenho a fazer aqui. Sei disso. Há tantas mais pessoas no mundo.
Não sou um grande homem. Nem sei enfrentar o mundo.
Talvez acabe por morder o anzol.


Guida R. Pires

Publicado por cerebro em 07:50 AM | Comentários (3) | TrackBack

janeiro 28, 2004

Colagens

Há um diamante no céu. Um tesouro que nunca se perde.
Que nunca se alcança.

Frenético, jogador.
Musico, revolucionário.
Merda. Orgânica matéria.

Não consigo ver!? Não faz mal, eu também não.
Vamos a voar.
Para o túnel apanhar morcegos. É como o túnel dos horrores.

Onde vais? Nessa grande viagem daqui para fora.
Estás assim tão bem lá?

Tudo fica diferente visto daqui.

Guida R. Pires

Publicado por cerebro em 07:32 AM | Comentários (1) | TrackBack

janeiro 27, 2004

(a carta da paixão)

Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.


Herberto Helder
PHOTOMATON & VOX

Publicado por cerebro em 10:19 AM | Comentários (0) | TrackBack

XXLII

Olho para mim e só vejo – a noite nos teus olhos.
Meus defeitos meus desejos – a noite nos teus olhos.

Minha alma vendida destruída – pago para te ver.

Pago para te ter.

E para te esconder – até me sentir melhor.

Eu pago. Eu pago. A soma das orgias.
Todas as mentiras.
E até melhores dias.

Olho para mim e só vejo.
Meus defeitos meus desejos.

Guida R. Pires

Publicado por cerebro em 10:16 AM | Comentários (2) | TrackBack

janeiro 22, 2004

Começar pelo fim.

Começar pelo fim
apagar as velas
destruir correntes
Abrir as paredes
desligar o som
acabar por ser
diferente dos outros
Ver secar os mares
ver cobrir pelo fogo
Basta ser diferente
basta estar ausente
Começar pelo fim
pisar bem a relva
gritar no silêncio

Voltar ao principio
sem passar pelo meio
Ver o sol morrer
ver sorrir assim
Basta ser diferente
basta estar ausente
Começar pelo fim...

Guida R. Pires

Publicado por cerebro em 09:04 AM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 12, 2004

Preciso de dias com 48 horas!

Ou então é perguiça.

Ando a escrever neste cantinho com muito menos assiduidade. O tempo escasseia, os dias são curtos. Demasiado curtos para o que tenho de fazer. Mas quanto mais curtos os dias se tornam mais a perguiça se apodera de mim.

É como uma batalha perdida. E mesmo tendo as armas para a ganhar, escondo-as, esqueço-me delas, não as limpo. Não as quero usar.

Será que esta batalha se vai transformar numa guerra? Pode ser, espero que seja, porque aí vou reagir.

:)

Publicado por cerebro em 08:54 AM | Comentários (4) | TrackBack

janeiro 06, 2004

Canal da Mancha de morte.

Viagem horrivel eu fiz
quando o canal da mancha atravessei.
Pensei que morria.

Na verdade... não quero morrer assim.

Um passo p'rá fronteira.
Quero quebrar as distâncias.
Levar até ti a fragância
das ruas replectas de lama.

Vejo as aves que morrem,
os bares que fecham às duas
as almas perdidas.

E acho tudo um pouco peculiar.

Talvez seja precisa uma nova revolução.
Talvez o Amor já não chegue.

Talvez tenha que te fazer prisioneiro do meu coração.

Guida R. Pires

Publicado por cerebro em 07:27 PM | Comentários (1) | TrackBack

janeiro 05, 2004

Está melhorando...

... a coisa está melhorando. 2004 trouxe-me um portátil novo, monitor plano 17'', teclado e rato sem fios. Para inicio de ano isto promete.

Publicado por cerebro em 04:10 PM | Comentários (1) | TrackBack

Olá 2004... Adeus 2003...

Voltei com muito pouca energia para gastar. Preciso de férias para recuperar das férias que agora terminaram.

Pensei em alterar o template deste meu/vosso cantinho. Pensei.... e logo desisti. Vou ter que arranjar forças rapidamente. É suposto começar um novo ano a 100 à hora, não a 50.

Mas para primeira entrada de 2004 e sem energia nenhuma, até que não está mal de todo.

Publicado por cerebro em 01:46 PM | Comentários (0) | TrackBack