novembro 30, 2003

Poeta querido maldito.

IV

Nós somos loucos, não somos?
Desta louca poesia,
Desta riqueza dos pobres
Que se chama fantasia!

Ergamos pois nossa tenda
E nosso lar de pobreza
No mais ermo desses montes,
No fundo da natureza.

Se o frio apertar connosco,
Pois não temos mais calores,
Aqueceremos os membros
Na fogueira dos amores!

Se for grande a nossa sede,
Tão longe da fonte fria,
Contentar-nos-emos, filha,
Com as águas da poesia!

Assim à nossa pobreza
Daremos a Imensidade...
Que com isto se contente
Nossa pouca seriedade.

E, pois somos loucos, vamos
Atrás dos loucos mistérios...
Deixemos ricas cidades
Ao sério dos homens sérios!

Antero de Quental
Primaveras Românticas


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Decalcado.

Decalcado

Deixei-me ir ao acaso
Por vias estreitas
E sinuosas,
Que me atraíam e perturbavam.
Decifrei o sentido
Das verdades reveladas
Que unem num grito
Tudo o que é estranho.
Descobri o segredo
Daqueles que perderam
O seu próprio destino
E fui excomungada.
Acariciei com revolta
Os rostos perdidos
Dos piratas da história.
E num ódio sagrado
Voltei para a rua.

(Tem uns anos, escrevi enquanto lia “100 anos de solidão” de Gabriel Garcia Marques. Por isso lhe chamei “Decalcado”, na ideia e no conteúdo)


Guida R. Pires

Publicado por cerebro em 08:51 AM | Comentários (0) | TrackBack

Soltos.

Há memórias que dormem no aconchego da alma.
E há outras coisas impossíveis de falar.


Rayographie
Man Ray


Fogo-fátuo.

Na floresta onde vivo
As borboletas gritam
Claramente como agora
E o som que oiço
São as árvores
Que gemem baixinho
No silêncio da morte que as espera.

Guida R. Pires


E aqui estou eu curtindo a minha dor.
Uma dor de desesperança.

De grunhidos roucos em véspera de
Matança.

Guida R. Pires


Quando sucumbir à vida
LANCEM-ME ROSAS
Não quero rendas nem cetins
Não quero madeiras de pinho
Nem discursos de ocasião
QUERO UMA MORTALHA CINZENTA

QUERO ROSAS E UMA MORTALHA CINZENTA.

Guida R. Pires

Publicado por cerebro em 08:48 AM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 27, 2003

O meu comentário...

As moscas não fumam e também morrem.

Publicado por cerebro em 09:06 PM | Comentários (1) | TrackBack

Ok. É Natal. Já?

A maior gaffe que cometi foi acreditar que o Natal é em Dezembro. Fins de Dezembro.
Bom, e porquê? Porque isso foi o que pensei durante muitos anos. Mais tarde descobri que a época natalícia começa para aí a meio de Novembro. Precisamente na altura que a minha TV de altissima definição, começa a bombardear-me com quinze minutos de publicidade entre cada programa (não há leis contra isto?).
Elas são as bonecas que choram, as que riem e até as que fazem xixi. Eles são os jogos electrónicos, os videos, os mega-não-sei-quantos, as bicicletas, os carros carrinhos camiões... Uf! É uma canseira. E os meninos lá de casa, excitadíssimos, apontando para a TV e dizendo:
- Eu quero este!
- E aquele também!
- Oh mãe, o pai natal vai dar-me a boneca que chora e o namorado e a casa...?
E tudo a um ritmo alucinante.
Será a isto que chamam violência na TV? Deve ser.
Mas é bom é bonito. As crianças andam felizes, as shares movimentadíssimas, a economia do país cresce, o PIB sabe Deus em quanto está. Enfim, o país não pára e erradia felicidade. Até as crianças da rua andam mais alegres com tanta luz e cor.
As primeiras páginas dos jornais, normalmente tão sorumbáticas, trazem cor e fotos de pais natal e coisas assim lindas.
Andamos ou não andamos todos mais felizes, aluados, desligados?
O Natal é bom e não devia acabar nunca.

(Era suposto isto ser uma ode ao Natal. Não saiu lá muito bem. Paciência. Fica para o ano.)

Publicado por cerebro em 08:44 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 25, 2003

Ternuras... por e-mail

Recebi este e-mail há pouco. Carolina é minha sobrinha, tem 11 anos.

"Olá tia! Como tens passado? Andámos no teu site. Vê lá se escreves alguma coisa sobre mim...(Carolina) O que estás a fazer? Já alugaste o cérebro? Agora tenho de ir almoçar. Beijos."

Está aqui, publicamente prometido, uma das próximas entradas que escreva é para ela.

Publicado por cerebro em 12:57 PM | Comentários (1) | TrackBack

novembro 20, 2003

Imagens

"Velho Guitarrista"
"Violino e Guitarra"
Picasso

Publicado por cerebro em 08:27 PM | Comentários (0) | TrackBack

Vi, parte, da entrevista...

... infelizmente só vi parte da entrevista, na SIC Noticias, com o Lobo Antunes. Mas retive.

"... enquanto eu fôr vivo o meu avô estará vivo... em mim (...)"

subscrevo e troco avô por avó. Me desculpe o Lobo Antunes e o seu avô.

".. tenho sempre a esperança de que aquilo que escrevo seja algo que tu entendas(..)"

também subscrevo, e o meu tu chama-se Mãe.

Publicado por cerebro em 08:21 PM | Comentários (0) | TrackBack

XXV

Sentindo o vento em meu encalço
corri por entre as pedras deste mar.
O sonho de dormir em teu regaço
dá-me a força de seguir e não parar.

Mas o monstro que se ergue lá no céu
e me olha com olhar de tentação,
cobre meu corpo com seu véu.
Sua espada me trespassa o coração.

E quando o vento acalma em sua fúria
do sonho resta apenas a penumbra.

Guida R. Pires

Publicado por cerebro em 08:11 PM | Comentários (1) | TrackBack

No meio...

... de tanto poema, por vezes caio na realidade.

Afinal, quem é o Michael Jackson???????

Publicado por cerebro em 08:07 PM | Comentários (2) | TrackBack

novembro 18, 2003

LVIII

Delírios


Delírios de gente pedrada
de copos vazios na bancada
de sexo escarpado na escada.

Delírios à porta fechada
de palavras ditas caladas
de vidas abruptamente roubadas.

Guida R. Pires

Publicado por cerebro em 07:22 PM | Comentários (0) | TrackBack

LXII

Desvios I

Como um túnel escuro e húmido
sem retorno
com línguas que parecem cobras
que deslizam pelas paredes.
Zigue-zagues estonteantes.
Assim é a voz que me chama.

Desvios II

Os desesperados íam e vinham
e eu fiquei parada
a olhá-los...
no espelho.

Guida R. Pires

Publicado por cerebro em 07:20 PM | Comentários (0) | TrackBack

Pensei,

pensei em coisas que nunca vi. Quis escrever um poema. Foi assim que o escrevi:

O que eu vi em milhares de sons
e crepúsculos púrpura, côr
de reis e paixões. O que eu não vivi.
Quando a onda do mar enrola, morre.
Eu, que no instante passado gritei
surda de alvor e penumbra.
Corri, corri, e nem uma ilha encontrei.
Nem pintores de vermelhos rubros.
Nem trovadores de celesteais odes.
Nem ninguém. Mais forte que o nectar
ou canto de lira. O que me corre nas veias?
Eu, que não procuro o devir.
Que é na pedra solta que sempre marco o pé.
Eu que choro com as chuvas de Abril.
Que me antecipo à dor como finto a morte.
Sou pinheiro manso, sou tormenta.
Sou sombra fugaz reflexo na lama.
Sou cinza, cinza
sou nuvém em pó.

Guida R. Pires

Publicado por cerebro em 06:41 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 17, 2003

LXXIII

Tivesse eu encontrado telas de sons impossíveis.
Países, pessoas. A ti que me matas.
Tivesse eu percebido perfumes sensíveis.
Céus, mares. A ti que me escapas.

Guida R. Pires

Publicado por cerebro em 05:51 PM | Comentários (0) | TrackBack

LXXII

Ah! Que sentimento misterioso é este que me arfa no peito?
Que sede é esta pelo desconhecido?
Ah! Que extraordinária atracção é esta pelo horror?
Que vontade trágica de existir!

Guida R. Pires

Reflexos, 1972
Brett Weston

Publicado por cerebro em 05:04 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 14, 2003

LXXV

Todas as cores te pintava.
Todos os sons te cantava
Os sentidos que em ti acordava.
Para te fazer embalar em sonhos
sempre iguais.
Mas não. Deixei que o mundo avançasse
sem mim. Porque eu não sou eu.
Eu sou o outro, ele. E sou eu, ela.
Tudo o que sou é o que quizeres.
Se queres uma voz... sou eu.
Guerra... sou eu. E paz também.
Cólera. Raiva. Ódio.
Amor e carícias. Sou eu.
Queres vida? Eu dou-ta.
Ela corre sem mim!
Posso ser tudo. Tudo o que desejares.
Mas não sou a consciência do mundo.

Guida R. Pires

Publicado por cerebro em 10:19 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 13, 2003

Eureka...

A melhor forma de resolver um problema... é arranjar outro problema!

Publicado por cerebro em 09:00 PM | Comentários (1) | TrackBack

Pudesse Eu

Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!

Sophia de Mello Breyner Andreson

Publicado por cerebro em 09:34 AM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 12, 2003

Não sei o que dizer...

Preciso de pessoas que estão vivas.
Não de pessoas que estão longe.

Longe é... o impossivel.

Eu quero coisas possiveis.

Palpáveis. Aqui e agora.

Ah! Sementes que darão fruto.
Frutos que saciarão a fome.

Fome de que não devo falar.

Guida R. Pires

Publicado por cerebro em 07:45 PM | Comentários (0) | TrackBack

VII

Quando a alma vagueia
obstinada,
entre serões passados em branco
e seus tentáculos
preparados para nada.

Quando o corpo não responde
aos estimulos da noite fechada
das portas de luzes douradas
onde procuras raparigas encantadas.

BUNDESBANK
RUA AUREA
KARL MARX
DEMOCRATAS
DESTRUIÇÃO
ARMAS QUIMICAS

PAZ

Vagueia obstinada
entre teu corpo e minha alma.

Guida R. Pires

Publicado por cerebro em 07:37 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 11, 2003

E DEUS CRIOU AS CRIATURAS PREVERSAS.


(se esta imagem estiver protegida por um qualquer copywrite avisem!)

GLENFIDDICH
Pure Malt
Scotch Wisky
30 Year Old!

Oh Yeah!

Guida R. Pires

Publicado por cerebro em 08:11 PM | Comentários (3) | TrackBack

LIX

Ecleto desceu ao inferno pela porta da frente
Cleo segui-o com um manto purpúra
Esperando a hora de o afagar e matar
Ecleto escondeu-se no caldeirão de poções mágicas
Cleo acendeu o fogo e morreu.

É o regresso dos heróis românticos e sentimentais.

Guida R. Pires

Publicado por cerebro em 08:09 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 10, 2003

Chiça...

... 90 anos. É uma vida... bom, nos dias que correm, é mais que uma vida. São no minimo duas vidas. É obra.

No caso deste senhor se calhar até são mais.

Desenhos na prisão-1951

Publicado por cerebro em 08:35 PM | Comentários (1) | TrackBack

Imagens & Cores

Isto está a tornar-se tudo muito cinzento.

Vermelho.

Azul.


Man Ray


Publicado por cerebro em 08:25 PM | Comentários (0) | TrackBack

Dor visceral.

Não sei qual é a distância, não vejo qualquer pensamento.
Há uma luz que ao fundo vislumbro. Há uma fragância.
Esse cheiro que me corrompe, que me seca a boca.
Farol que me guia os passos, me amordaça a palavra.
Sou um bicho perguiça com vontade de vida,
o espelho concavo da minha miséria.
Sou um filho de puta.

Sou gaivota de altos gritos
Falcão de voos a pique
Sou mar azul sou verde
Sou onda que rebenta em abismos
Sou corda sou trapo sou pão.

Guida R. Pires

Publicado por cerebro em 07:52 PM | Comentários (2) | TrackBack

E se fosse mesmo assim?

Pus-me à estrada. Não procurando aventura nem reacções extemporâneas, procurando um lugar. Qualquer sitio onde pudesse ficar. Pela frente não tinha só estradas infinitas e mares imensos. Pela frente tinha espíritos condescendentes, almas misteriosas. Pronta para as seguir.
Não palmilhei um mundo de inocência e paz. Não encontrei gentes de cabeça vazia... como queria. Nem lugares de diversão profana. Nem estúdios vazios que pudesse habitar. Vamos apanhar-te. Rasgar-te a roupa, estripar-te o ventre corromper-te a alma. Este lugar é tudo e eu vou-to provar. Não tem anjos nem meninas de sonho. Não tem morte nem registos de natalidade. Para que saibas, um dia dois intrusos passearam-se impunemente pelas nuvens.... fizemos chover.
Aqui não há verdade ou mentira, não há fora nem dentro. Aqui todos andamos confusos. Ninguém sabe para onde ir. Por isso ficamos, vamos ficando. Todos sabemos que só a morte nos pode libertar. Que um dia um louco vai espalhar galões imensos de gasolina. Vai atear fogo e uma grande explosão vai acontecer. Só vão ficar as pedras e as almas. E o louco sorrindo.
O louco é um homem pássaro a quem ninguém consegue escapar.

Publicado por cerebro em 07:46 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 07, 2003

Tá bem...

Voltei.
Não que esse facto seja de grande importância! Mas voltei.

Na verdade... nem lembro de algum dia ter ido embora.

Publicado por cerebro em 02:37 PM | Comentários (0) | TrackBack