Cap. I
Coisas fúteis após um dia de trabalho. Numa esplanada onde o sol ainda bate, falar de politica, futebol, das intermináveis guerras, da fome. Tudo futilidades ao pé de um dia horrivel de trabalho. Sim. Porque quem paga o carro último modelo que tenho na garagem? E o Hi-Fi que me alimenta a alma? O apartamentozinho duplex onde recebo os amigos mais chegados? (e os outros também).
Não pensem que não me preocupo! Preocupo-me sim, e muito. Mas já que não posso fazer nada, parem de debitar essas imagens horriveis de crianças disformes de má nutrição, de corpos muribundos caídos pelo chão, dos refugiados de um qualquer país terceiro mundista. Ainda por cima na minha TV de alta definição! Que de terceiro mundista não tem nada.
Por esta altura devem de estar a pensar cobras e lagartos de mim. Que sou insensivel. Amarga, talvez. Mas não. A palavra é... desiludida. Perguntam-se, agora, se de cada vez que entro numa loja para comprar um daqueles aparelhos super sofisticados, que gravam imagens e sons, e emitem as mais lindas sensações, não sinto uma pontinha de remorso. Remorso porquê? Por quem? Pelas criancinhas inocentes que morrem nessas guerras super imaginativas? Ou pelas outras que não têm o que comer e incham como balões de ar quente? Ou por vocês? Que pensam como eu, agem como eu, ignoram como eu, mas não admitem como eu?
Devem de estar com vontade de me chegar a roupa ao pêlo. Mas continuam a dormir o sono dos justos. Ou será dos injustos? Talvez nos falte inspiração.
Continuamos a ser os mais sós com toda, ou apesar de toda, a nossa telegenia.
Continua
... é Valentim.
Não sei como, desculpem-me,
mas apenas apareci.
Não tenho passado, não lembro o futuro.
Nem sei porque vim.
O que eu sinto... meus amigos
é que, se para uns acabou
para mim começou.
Minha alma é alva, minha pele é negra, sensibilidade é força
a força é delicada.
Mas meu nome é Valentim e,
isso deve querer dizer alguma cousa.
Sou filho porque nasci,
sou pai porque é assim.
E mãe... enfim.
Um dia eu encontrei, a visão de uma flôr
e fiquei inebriado
fiquei embriagado.
Com a exaltação desse odor.
E o meu mundo que era nada
rápido se transformou
num rio, num mar oceano,
numa galáxia de estrelas aladas.
Mas meu nome é Valentim
e nem sei porque vim.
Guida R. Pires
Não se perdeu nenhuma coisa em mim
Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Agora estou na vida sem senti-la.
Como um velho num quarto de hospital,
com os olhos pregados na janela.
Pupilas dilatadas, já vê mal.
As rugas que se vêm no seu rosto
são o espelho de quem ousa não morrer.
Para o céu minhas preces eu remeto.
Liberta-me da vontade de querer...
a morte deste velho vagabundo.
Guida R. Pires
Em tempos cruzaste continentes.
Noutros cantaste alto tuas vitórias.
Mas o tempo que importa tu esqueceste.
E isso não perdoa nem a história.
As lágrimas que te caem pelo rosto.
Quando vês os teus filhos na loucura.
Não limpam a vergonha de teres morto
a memória de um tempo que ainda dura.
Vou esperar sereno pelo dia
em que o dedo da justiça se levante,
e te acuse de teres tido a ousadia
de esquecer um tempo que é presente.
Guida R. Pires

Reconhecimento à Loucucura
Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?
Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar
José de Almada Negreiros

Não sou nada
Nunca serei nada
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Estou hoje vencido, como soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer.
Fernando Pessoa
Portugal está tão deprimente que, a partir de hoje, me recuso a comentar os acontecimentos desta nossa "coisa" à beira-mar plantada.
Sim, Portugal passou a ser uma "coisa", e bem feia.
Decisão tomada com validade indeterminada.
"Amar é admirar com o coração, admirar é amar com o cérebro".
Não fixei o nome do autor. Sou um cérebro, tenho destes esquecimentos.

Eu
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...
Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo p'ra me ver
E que nunca na vida me encontrou!
Florbela Espanca
... e não é um fenómeno recente. Em que mundo vivem os nossos governantes? A prostituição existe em Brangança, em Lisboa, no Porto, em Setúbal, em Ponta Delgada, no Funchal, em todo o país. É um fenómeno global. Mas não é um produto da globalização.
A Time noticiou? Claro, como o Le Monde também noticiou o caso Casa Pia. E outros noticiaram tantos e tantos casos bons e maus que se passam no nosso país.
Qual é a ideia? Fazer crer que até à noticia da Time não existia prostituição em Portugal? Ficaram chocados por, na mesma edição, serem relatados factos veridicos relativos à prostituição em Bragança e publicidade ao Euro 2004. O Bom e o Mau. O reverso da medalha. Deus e o Diabo.
Retirar a publicidade ao Euro 2004 na dita revista é fazer censura da mais ignóbil que pode haver. É não acompanhar os tempos modernos a era da globalização. É idolatrar o "orgulhosamente sós e ofendidos".
Não nos devemos sentir orgulhosos quando o nosso país é referênciado, fora de portas, pelo que de pior tem, mas também não podemos enfiar a cabeça na areia e ignorar.
Senhores governantes, vocês são isso e apenas isso, não são o ego pensante dos portugueses.
Acabo de aceder via “O Independente” ao Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa que ordenou a libertação de Paulo Pedroso.
Esclareçam-me por favor. Um acórdão de um tribunal, seja ele qual for, não deveria estar em segredo de justiça? Se a resposta for não, é bom que venha publicado, pelo menos esclarece, sem especulações mediáticas, o assunto. Se a resposta for sim, algo de muito errado está a acontecer com a nossa justiça e os seus actores.
Quando algo que se encontra em segredo de justiça vem a público a culpa não é dos jornalistas ou dos média que publicitam os factos, mas do sistema judicial que permite que esses mesmos média tenham acesso aos ditos cujos.
O nosso sistema judicial escreve torto em linhas direitas e, o nosso não é um estado de direito, é um estado do endireita.
Se lermos o acórdão seremos culpados de violação do direito de justiça? Se calhar somos. Ainda poderemos vir a ser os bodes expiatórios deste complexo problema. A culpa é sempre do mexilhão.
“Lembro-me perfeitamente. Como se fosse hoje. Vasco Gonçalves apareceu na televisão mais despenteado do que nunca. Parecia sentado numa cadeira, mas na verdade deitava-se nela. Fazia gestos brutos e metralhava palavras de irritação geral com o mundo. Havia baba e raiva. Ele coçava-se e a câmara tremia. Punha e tirava os óculos ao compasso dos amores e dos ódios. Era uma cena de pura violência política no Estado à beira do colapso.
Eu tinha onze anos e espantei-me. Desde pequenino ouvia falar de política em casa, vagamente no colégio dos jesuítas, às vezes na missa. O meu pai achava que a vida faria sentido para mudar o mundo, a minha mãe suspeitava que a desordem do mundo podia dar cabo da nossa vida. Como é natural, eu não tinha opiniões, só impressões. Nem sabia de razões, só de emoções.
A aparição do companheiro Vasco teve o efeito de me decidir. A imagem dele faz parte da minha memória do mal. Porque há sempre um momento, sei que Vasco Gonçalves teve a maior importância na minha iniciação militante. Se a primeira vez é importante, ele foi a minha primeira vez em política. Podia tê-lo seguido e ficaria do lado de lá da barricada: talvez fosse hoje um desses homens de esquerda que todos os dias matam a sombra, apagam o lastro e gozam o sistema. Mas não. Devo a Vasco Gonçalves o facto de ser uma criatura irremediavelmente de direita.
Olhei para ele e fiquei contra-revolucionário. Daí para a frente, passei a desconfiar dos militares e a detestar o comunismo. Quanto aos militares, façam lá o que fizerem as fardas oficiais, quero-os longe. Quanto aos comunistas, levei tempo a digeri-los. Só agora consigo respeitar um camarada disposto a morrer camarada: é um facto mais digno e humanitário do que a massificação da dissidência. Não passou mais do que um mês. (...)"
Revista K, nº1, Quando eu tinha 12 anos, Paulo Portas, Outubro de 1990, o mesmo Paulo Portas que hoje é Ministro da Defesa e diz que Freitas do Amaral virou à esquerda.
Ah! AH! Ah! Ah! AH! AH!
Passei os olhos pelo “Abrupto” e, não deixei de achar estranho. Nem uma palavra sobre as demissões governamentais (Pedro Lynce e Martins da Cruz), nem uma palavra sobre as substituições inerentes, nem uma palavra sobre a libertação de Paulo Pedroso (o que eu entendo, neste caso, por ser um assunto muito melindroso e não se deve “opinar” de animo leve, eu próprio ainda não o fiz). Apenas uma breve retórica sobre palavra de honra e detector de mentiras. Estará JPP contemplativo? Estará dividido entre a sua esquerda e a sua direita? Estará entre o indignado e o sereno?
Estamos habituados às suas “brilhantes” análises, ficamos com a saudade.
"O que há aqui é uma situação de falta de clareza de uma lei que é injusta... não se pode prejudicar a jovem por o pai ser ministro". [Pedro Santana Lopes, sobre o caso da filha do ex-ministro Martins da Cruz]
Pagam a este tipo para dizer estas coisas?
O excesso de gel andará a afectar-lhe o raciocinio?
Será da idade? Já está a caminhar para o "entradote"!
Ou é apenas seguidismo partidário e aí o caso é bem mais grave?
Nova MNE, Teresa Patricio Gouveia.
Nova MCES, Maria da Graça Carvalho
Sensibilidade e bom-senso.
Há homens de palavra, como há mulheres de palavra mas, sem dúvida, a sensibilidade é predicado do sexo feminino e, o bom-senso servido em doses iguais. 25% de palavra, 25% de sensibilidade e 50% de bom-senso e este barco poderá chegar a bom porto. Dou-lhes o benefício da dúvida. Não por serem mulheres mas, porque ao serem mulheres neste governo tão “cinzento” poderão ser a lufada de ar fresco de que o país precisa.
Pode ser ingenuidade minha. Pode ser que, como se diz, seja do gabinete do P.M. que saem as decisões em relação à nossa politica externa e, Teresa Patricio Gouveia seja apenas mais um biblot a juntar a tantos outros. Pode ser que tudo vá continuar na mesma.
Mas também pode ser que as duas tenham a coragem de se fazerem ouvir, de tomar medidas, mesmo que elas vão contra a politica seguidista, mercantilista e demagoga deste governo.
Quem sabe? Pode ser.
Palavra de ministro.
Antes:
"Posso garantir, sob palavra de honra, que nunca falei sobre este assunto com o meu colega do Ministério da Ciência e do Ensino Superior, Pedro Lynce".
Depois:
"Tenho a consciência tranquila, não cometi nenhuma ilegalidade, não violei nenhum princípio ético" (...) "insinuações estão a ter consequências gravíssimas"
"Estou disposto a fazer todos os sacrifícios pelo meu país mas não tenho o direito de exigir o mesmo a uma jovem de 18 anos"
Palavra de honra Nunca valeu tão pouco.
Consciência quem a tem chama-lhe sua.
Se aos 18 anos tem "esperteza" para passar, de forma no minimo pouco correcta, à frente de centenas se não milhares de jovens portugueses no acesso ao ensino superior, também terá para os sacrifícios que o país lhe exige.
Afinal Sr. ex-ministro Martins da Cruz, porque se demitiu?
Um agradecimento especial à Vic do A Internet para as Domésticas-já
por tão delicadamente me ter enviado um e-mail de "agradecimento" ao meu comentário ao seu post "E por falar em Senhoras Donas...".
Já agora, contrariamente ao titulo deste post, acho que o mundo já é das mulheres e homens domésticos. (Sim! também há homens donos-de -casa, eu conheço alguns, nem que o sejam apenas temporariamente.)
Oito Horas. Chiça, oito horas!
Diabo de despertador. Merda de cama.
Levanta-se meio tonto. As noites nem sempre são... maravilhosas. No caminho para a casa de banho molha os pés numa poça de... mijo! Encho-me a rir com este gajo.
Rádio de merda... ah, Doors. "Lamentamos mas morreu Mick Temple. De seguida um... " Click.
Não! Não meu, o rádio não!
"Esta é a linguagem da.. ah!... esquece o teu nome e idade. Esquece o que és. És criança, agora. Amas-me e odeias-me cem vezes. Deixa-me ir que não volto mais. Este é o diálogo que queriamos ter tido. Amem-nos, odeiem-nos, mas deixem-nos ir. É noite, não nos vamos deitar."
Mick Temple! Quem é que esse gajo pensa que é?
FIM.
AAAhhh... Uhm que sooono!
"Assustaste-te? É como num sonho. É tudo igual, vais fugir para onde?"
Uuuhhmm... sempre a mesma coisa.
C'uma porra... acabou. Caixeiro viajante? NÃO.
... a minha mãe vai ficar satisfeitíssima. Consegui, pela primeira vez, planear algo na vida a médio/longo prazo. De 29 de Maio a 6 de Junho de 2004 sei onde vou estar. E mais, sei como, onde e porquê!
ROCK IN RIO - LISBOA.
Lá vos espero!
Nota: Quero lá saber dos ministros e filhos e netos e afins. Quero que se lixem.
Este é um país maravilhoso de gente maravilhosa. Com ministros maravilhosos que interpretam as leis de forma maravilhosa.
A filha requer tratamento excepcional de uma lei execpcionalmente feita. O pai jura por sua honra que "não", não interferiu não pediu favores, talvez excepcionalmente. Há, ainda, o outro que diz que "não", não faz favores a ninguém, que o importante é a "excepcionalidade" do mérito e, demite-se.
O pai diz que a filha, excepcionalmente, não vai ocupar a vaga. Até parece que é um favor que nos faz, a nós, gente maravilhosa de um país maravilhoso.
Demita-se o pai, demita-se a filha do pai, demita-se o outro também... Olhem, pronto, demitam-se todos.
O país vai continuar maravilhoso!